E esse junho que não passa?

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“Quando chega junho em Caruaru, acende uma fogueira no meu coração”, diz aquela música tradicional local que quem é da cidade conhece desde pequeno.

Não é só um não gostar de São João. Tanto que as cores, as luzes, as comidas, os movimentos, as danças e balanceios, os gingados, os xotes e baiões, forrós e os estopins das bombas, são pra mim de uma lindeza e riqueza cultural sem tamanho. Muito da minha infância foi enchendo o bucho de comida de milho depois de ter ajudado a descascá-lo, tirar o cabelo, ralá-lo durante o dia inteiro; Foi de me vestir de matuta pra ficar em torno do calor da fogueira estourando traques e rodando chuvinhas; Foi de esperar com ansiedade as vésperas e dias santos, de assistir as quadrilhas, de rir das pataquadas dos turistas e das fantasias das hoje inexistentes “drilhas”. Ir assistir o tradicional show de Elba Ramalho soava divertido e animador; Receber familiares que convenientemente nos visitavam em junho, era uma alegria só.

Mas como um amigo falou, as pessoas que amam muito tudo isso escolhem tudo isso. A mim, desde pequena, foi imposto estar nisso e gostar disso.

Passada a fase de liberdadeinfantil, foi apelado à nossa consciência ter que ajudar nossos pais a trabalhar, ainda que já ajudássemos, ainda que com tom de brincadeira. Na adolescência, tivemos que lidar com a seriedade do trabalho real. Meus pais trabalhavam com bar e o mês junino era a oportunidade de lucrar um pouco mais, então era trabalho e cansaço intensos e a nós não era dada a possibilidade de escolher estar no meio ou não. Fazer compras, limpar banheiros e mesas, atender clientes, lavar pratos, cozinhar por dias e noites seguidos era o nosso mês de junho, era o nosso São João.

O problema não era só o trabalho, era ouvir por horas consecutivas músicas que eu não curto. Era lidar com um público bêbado e abusivo. Era ter que sorrir, aguentar, persistir, porque precisávamos. Era o cansaço extremo de quem revirou muitas e muitas noites. São lembranças que não se apagam fácil assim, como as pessoas esperam.

Ainda hoje, que a gente não lida mais com  bar e público, sempre escuto as pessoas que aparecem aqui por casa e sempre me perguntam meio chocadas o porquê de eu não curtir São João (morando na “capital do forró”, tão perto do Pátio do forró). É cansativo até tentar explicar, porque as pessoas não entendem nunca.

Seja por inferno astral, seja pelo histórico cansativo que sempre acontece nesse mês, do meu calendário, junho é o pior mês.

Reitero que acho lindo, mas ainda que hoje seja telespectadora do espetáculo todo, essa fogueira não vinga mais em meu coração. Hoje, ela virou as cinzas molhadas do outro dia.

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