Querida eu,

Minha vida pós-tcc vem andando em colocar ordem nas coisas que não consegui colocar nesses últimos anos – que vou desistir de contabilizar, porque está ficando bem confuso. Então pra iniciar, pensei em começar a fazer uma faxina DAQUELAS, pelo menos pra me dar conforto e limpeza visual no quarto. E, bem, nessa o que tem de coisa que vou achando, não é brincadeira.

Eis que achei um texto escrito à mão (uma versão mais porca e mais mimizenta) numa agenda de 2010 onde a jovem eu de 20 anos, achava ser o fim do mundo ainda morar com os pais e não ter livre acesso ao computador, morria por ter que voltar ao estágio na universidade e achava que a melhor solução era desistir de tudo e que morria de medo de falar.

Pois, então, precisamos esclarecer umas coisas:

Querida eu do passado, 

Não se passou tanto tempo assim, mas 7 anos faz realmente muita diferença na vida de alguém. Fico feliz em te dizer que a maior parte de suas angústias, aquelas ligadas à universidade, só tiveram um fim agora. A bolsa você largou nesse ano mesmo, porque humilhação por menos de 200 reais, não precisamos mais, me abraça. Reprovação não é o fim do mundo e ser não ser a melhor aluna também não. Algum tempo depois você arrumou o estágio que te deu emprego até agora.

A divergência familiar constante, de certo modo, se dissipou. Vieram outras pessoas, problemas novos, coisas que a vida adulta exigiu maturidade e paciência. Não precisas mais achar que não usar o computador é o fim do mundo. Surpreendentemente, aquele teu desejo de trabalhar o dia inteiro sentada em frente ao computador se realizou – e não é lá grande coisa, é só um trabalho com bônus e ônus. Ainda mais surpreendente é que, apesar do vício ainda em passar muito do teu tempo em frente ao computador – agora seu e comprado com seu dinheiro – tu vais desejar passar menos tempo sentada em frente dele. Vais desejar ter mais tempo pra trabalhos manuais, aperfeiçoar a pintura e o desenho, pra leres os livros que acumulastes na estante e no kindle, e ficar no computador quando for pra algo realmente produtivo, como estudar, ver filmes, desenhar.

Por incrível que pareça, a timidez diminuiu sim, mas veio com força o aumento da ansiedade, a piora da tpm e a melancolia. Mas estás mais imponente, empoderada, respondona e cobradora de justiça frente à causas sociais. Aquelas discussões eternas em grupos te serviram pra desenvolver melhor teus argumentos. Não fazes mais isso, de discutir com desconhecidos em rede social porque vistes que isso é o mesmo que dar murro em ponta de faca. Passastes a empoderar as pessoas próximas e as que procuram tua ajuda.

Tu sentisses a vida adulta finalmente chegar, à força, em 2012. Com a morte do avô, o avc do pai, a entrada à pulso de uma pessoa no centro familiar, a chegada de um emprego de verdade. Em 2014, a morte da mãe de uma amiga de teu uma chacoalhada. Hoje, não és tão adulta, mas não és a jovem que poderia ser, o espírito que antes já estava cansado, continua, mas com um pouco mais de segurança pra ir seguindo em frente.

Não aprendestes ainda as coisas que almejastes, violão, tricô/crochê/bordado/costura, por exemplo,  e agora tens menos tempo que antes, pois trabalhas como adulta que não queria ser 8h por dia, mas sem universidade tens agora as noites e a vida pela frente – te lembro que existe vida pós universidade. Em compensação, não és mais tão alienada em relação à notícias cotidianas (ou vai ver os tempos andam tão absurdos que se envolver é a única saída).

Ainda não estás totalmente desvinculada da universidade, ainda falta da entrada na documentação, colar grau e pegar o diploma (É ETERNO, MAS PASSA, LEMBRA SEMPRE), mas ainda há vida, muita pela frente. Esta que te assombrou tanto e te deu tanto sentimento ruim, ficou pra trás. Nesse meio tempo, apesar de tudo, tu desenvolvesses amizades lindas e vínculos maravilhosos com pessoas que encontrasses lá. Uma palavrinha mágica: Fotolab. Espero estar daqui a 7 anos te escrevendo sobre como o interesse de voltar a estudar em ambiente universitário tenha voltado.

E, no mais, desejar para que no futuro as grandes angústias do futuro pareçam tão pequenas como aconteceu com as tuas do passado.

Beijos, Keith.

 

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2 Respostas para “Querida eu,

  1. Bom ver que você está de volta! Ah, de agora até quando você tiver minha idade, muita coisa ainda vai passar por debaixo da ponte…muito sofrimento pela frente – alegrias também, mas parece que elas vão ficando mais raras…ou duram menos. Desanima mesmo. Envelhecer não significa rugas, e sim um espírito mais pesado, mais calejado, mais consciente e menos idealista, infelizmente.

    • Ah, agora me sinto mais inspirada a escrever qualquer coisa desde que não seja ligada ao meu tema monográfico, haha. Mas o tempo, de uma forma muito estranha e meio absurda parece cada dia mais curto…
      Ah, eu imagino. Se 10 anos já fizeram uma tremenda diferença, imagino 20, 30… Eu queria voltar a ter as pequenas alegrias de antes, mas cada vez mais difícil, mesmo. Se hoje já sinto que já vi de tudo e ao mesmo tempo que não vi nada, imagino daqui há alguns anos..

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